Podcasts no Amazonas: vozes que ecoam na floresta
Segundo o Spotify, o Brasil registrou, em 2023, um aumento de 36% na produção e de 28% no consumo de podcasts. No Amazonas, esse crescimento se manifesta de forma singular, impulsionado pela criatividade de estúdios caseiros, vozes independentes e a força cultural da região.
Enquanto o formato se consolida como uma das principais mídias digitais do país, no estado ele avança em meio a desafios estruturais, como o acesso desigual à internet no interior e em comunidades ribeirinhas. Ainda assim, com uma população majoritariamente jovem e urbana, especialmente em Manaus, o áudio sob demanda conquista espaço e revela novas possibilidades para a comunicação na Amazônia.

própria no coração da Amazônia.
Imagem: ChatGpt
Dados do IBGE (2022) mostram que apenas 65% dos domicílios amazonenses têm acesso à internet, percentual que diminui drasticamente em municípios mais afastados. Essa limitação concentra o público nas áreas urbanas, onde plataformas como Spotify e YouTube registram crescimento de audiência, principalmente para conteúdos de entretenimento, cultura pop e notícias.

Paralelamente, a produção local enfrenta obstáculos como a escassez de patrocínios e a dificuldade de distribuição, restringindo o desenvolvimento de um mercado potencialmente rico em narrativas regionais.
Lucas Simões, criador do podcast Vozes da Floresta, que aborda temas ligados à juventude, cultura popular e meio ambiente no interior do estado, relata:
“A gente faz com o que tem. Gravo no meu quarto, edito no notebook e publico com internet de celular. Mas o retorno é incrível, porque tem muita gente sedenta por conteúdo que fale da nossa realidade.”
Um mercado em construção
Apesar das barreiras, surge no Amazonas um cenário emergente de podcasts que começam a ganhar espaço. Produtores independentes exploram temas como sustentabilidade, lendas amazônicas e debates sobre desenvolvimento regional, preenchendo uma lacuna de representatividade.
A ausência de grandes players no estado mantém a produção em escala reduzida, com equipes pequenas que dependem de plataformas gratuitas.
Para a professora Carla Menezes, doutora em Comunicação Digital pela UEA, o podcast é uma ferramenta poderosa de expressão regional:
“O formato permite uma liberdade criativa e uma intimidade com o ouvinte que favorece narrativas locais. O Amazonas tem um potencial imenso, mas precisa de políticas públicas de inclusão digital e fomento à mídia independente para que esse mercado possa crescer com equidade”, destaca.
Especialistas como Carla também apontam que o potencial do formato vai além do entretenimento: pode servir como ferramenta educacional em comunidades remotas, meio de divulgação turística e até instrumento de capacitação profissional, desde que superadas as barreiras de acesso.

Desafios e potencial
O cenário reflete as contradições de um estado culturalmente rico, mas que ainda busca equidade digital.
Se Manaus acompanha o movimento nacional, o interior permanece à margem, evidenciando uma divisão que precisa ser superada.
A paixão dos produtores locais por contar histórias genuinamente amazônicas, no entanto, revela um terreno fértil para crescimento, desde que haja investimentos em conectividade, formação técnica e apoio à produção independente.
Mais que entretenimento, os podcasts podem ser pontes entre comunidades, instrumentos educativos e vitrines da diversidade regional para o mundo.
À medida que o formato amadurece no país, o Amazonas tem a chance de desenvolver sua voz única nesse ecossistema capaz de ecoar dos estúdios urbanos às comunidades ribeirinhas — transformando obstáculos logísticos em oportunidades para inovar.
O futuro do áudio digital na Amazônia ainda está sendo escrito, mas cada novo programa local representa um capítulo promissor nessa história.
Colaboração: Laura Figueiredo
